O artigo “A Dimensão Investigativa no Exercício Profissional”, de Yolanda Guerra, é uma leitura fundamental para quem deseja compreender o Serviço Social para além da execução imediata de demandas institucionais. A autora nos lembra que investigar não é um luxo acadêmico, nem uma etapa separada da intervenção profissional. Investigar é parte constitutiva do próprio exercício profissional.
Desde os anos 1990, a formação em Serviço Social no Brasil vem sendo orientada por um projeto profissional crítico, que articula teoria, prática, investigação e intervenção. Essa direção rompe com uma visão meramente operacional da profissão e reafirma que o assistente social precisa ser capaz de ler a realidade em sua complexidade, identificando as mediações que produzem desigualdades, violações de direitos e expressões da questão social.
Para Yolanda Guerra, a investigação não deve ser compreendida apenas como uma coleta de dados ou como uma fase inicial do trabalho. Ela é um processo permanente, presente no cotidiano profissional, seja na realização de entrevistas, estudos sociais, relatórios, laudos, pareceres, visitas domiciliares, diagnósticos territoriais ou na análise das demandas institucionais.
Esse ponto é decisivo. Sem investigação, a intervenção corre o risco de se tornar imediatista, burocrática e limitada ao aparente. O profissional pode até responder à demanda, mas dificilmente compreenderá suas determinações mais profundas. E, no Serviço Social, ficar apenas na aparência é sempre perigoso, porque a aparência costuma esconder a estrutura que produz a desigualdade.
A autora também destaca a importância de um referencial teórico-metodológico sólido. Não basta “observar a realidade”. É preciso interpretá-la criticamente. Nesse sentido, a tradição marxista ocupa lugar importante na produção do Serviço Social brasileiro, especialmente por permitir compreender a sociedade capitalista como uma totalidade contraditória, marcada por relações sociais historicamente produzidas.
A pesquisa, portanto, não é neutra. Ela está vinculada a uma direção social, ética e política. Conhecer a realidade é também disputar formas de intervenção sobre ela. Por isso, a dimensão investigativa fortalece a competência profissional, amplia a autonomia relativa do assistente social e contribui para uma prática comprometida com direitos, liberdade, justiça social e emancipação humana.
Yolanda Guerra também chama atenção para o fato de que o conhecimento é sempre provisório, histórico e em movimento. A realidade não se entrega de maneira simples. Ela precisa ser interrogada. É nesse processo que o profissional supera o senso comum, avança para uma análise crítica e compreende as relações entre o singular, o particular e o universal.
Na prática cotidiana, isso significa entender que uma demanda individual nunca é apenas individual. Uma família em situação de vulnerabilidade, um adolescente em medida socioeducativa, uma mulher em situação de violência, uma comunidade impactada por um grande empreendimento ou uma população removida de seu território expressam dimensões mais amplas da questão social.
É aqui que a dimensão investigativa se mostra indispensável. Ela permite que o assistente social não reduza o sujeito à demanda imediata, nem transforme o atendimento em mero preenchimento de formulário. Investigar é reconstruir mediações. É perguntar: o que há por trás dessa situação? Que relações sociais produzem essa demanda? Que direitos estão sendo negados? Que políticas públicas estão ausentes, fragilizadas ou sendo desmontadas?
Por isso, considero esse texto de Yolanda Guerra uma leitura obrigatória para estudantes, profissionais, supervisores de estágio, pesquisadores e todos que compreendem o Serviço Social como uma profissão interventiva, crítica e intelectualizada. Sim, meus caros e nobres alunos: pensar também dá trabalho. E, no Serviço Social, pensar é parte da intervenção.
A dimensão investigativa reafirma que o assistente social não é apenas executor de políticas. É também sujeito que analisa, interpreta, sistematiza, produz conhecimento e intervém sobre a realidade a partir de uma direção ética e política.
Em tempos de precarização do trabalho, respostas rápidas, excesso de demandas e pressão institucional por produtividade, defender a investigação no exercício profissional é também defender a qualidade do trabalho do assistente social.
Referência
GUERRA, Yolanda. A dimensão investigativa no exercício profissional. In: Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. Brasília: ABEPSS/CFESS, 2009.
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