Há livros que não apenas ensinam uma técnica. Eles ajudam a reorganizar uma postura diante do conhecimento. Ler, pensar e escrever, de Gabriel Perissé, é um desses livros. Publicado originalmente em 1996 e posteriormente revisto, atualizado e ampliado, o texto permanece importante porque trata de três ações fundamentais para qualquer pessoa que deseja estudar melhor, escrever com mais consciência e construir autonomia intelectual.
A epígrafe de Marina Colasanti já anuncia o caminho da obra:
“Além de saber ler é necessário saber o que se está lendo. [...] Cria-se um leitor quando, depois de aprender a ler o que está escrito, aprende a ler o que não está.”
O livro se organiza em torno de três verbos: ler, pensar e escrever. A ordem não é casual. Ler aparece como ponto de partida. Pensar surge como mediação. Escrever aparece como elaboração mais complexa, pois exige leitura, reflexão, escolha de palavras, organização de ideias e compromisso com aquilo que se deseja comunicar.
Gabriel Perissé afirma essa articulação de modo muito bonito:
“O ler conduzirá ao pensar, e o pensar conduzirá ao escrever. Ler e pensar. Escrevendo, pensar. Pensar e ler. Pensando, escrever.”
No primeiro capítulo, dedicado ao ler, o autor começa pela relação material com o livro. Antes de interpretar, o leitor toca, folheia, observa a capa, lê o título, passa os olhos pela introdução, pelas orelhas, pelo sumário. A leitura não começa apenas quando os olhos percorrem a primeira linha do texto. Ela começa no encontro entre leitor e obra.
Perissé trabalha a leitura como uma espécie de amizade. Há livros que chegam por indicação, por obrigação escolar, por acaso ou por necessidade. Alguns ficam. Outros não. Mas a formação do leitor passa por essa convivência contínua com autores, temas, estilos e inquietações.
Em uma passagem importante, ele afirma:
“O hábito de ler é meio caminho andado para uma pessoa ser intelectual e socialmente saudável e, em todas as áreas, um profissional melhor, mais bem preparado.”
(PERISSÉ, 2011, p. 3)
O autor também lembra que o prazer da leitura pode ser construído. Embora muitas pessoas tenham sido apresentadas aos livros de maneira impositiva, ainda é possível reencontrar a leitura pela via da curiosidade, da escolha pessoal e dos chamados “clássicos pessoais”, expressão que dialoga com Ítalo Calvino.
Um ponto especialmente interessante é quando Perissé trata a leitura como experiência que envolve os sentidos. Ler não é apenas olhar. É tocar o livro, ouvir o som das páginas, sentir o cheiro do papel, acompanhar o ritmo da escrita e, de certo modo, saborear o texto.
“Com a vista, naturalmente; com o tato, segurando o livro; com a audição, ouvindo o barulho das páginas ao serem folheadas; com o olfato, sentindo o cheiro da tinta impressa; e com o paladar, quando umedece o dedo indicador na língua para virar as páginas com mais facilidade.”
(PERISSÉ, 2011, p. 7)
A leitura, nesse sentido, exige presença. Ler com lápis na mão, fazer anotações, sublinhar trechos, reler passagens e conversar com o autor são práticas que transformam o leitor em sujeito ativo. Não se trata apenas de consumir páginas, mas de produzir relação com o texto.
No capítulo pensar, Perissé aprofunda a discussão sobre a linguagem. A etimologia aparece como instrumento de investigação, quase uma arqueologia das palavras. Pensar exige escavar sentidos, desconfiar do uso automático da linguagem e perceber que as palavras carregam história, disputa e visão de mundo.
Esse ponto é muito importante para a formação acadêmica. Quem não pensa sobre as palavras que usa acaba repetindo fórmulas prontas. E quem repete fórmulas prontas dificilmente escreve com autoria.
No capítulo escrever, o autor enfrenta uma ideia muito comum: a de que escrever seria apenas uma questão de talento. Perissé desloca essa visão e trata a escrita como trabalho, técnica, disciplina e exercício contínuo. Escrever exige lapidação. Exige tentativa. Exige reescrita.
A escrita aparece como prática cotidiana, não como iluminação ocasional. Grandes autores desenvolveram rituais, métodos e formas próprias de trabalho. Por isso, a orientação de Perissé é direta:
“[...] começar a escrever escrevendo [...] Começamos aos poucos, palavras jogadas aqui e ali, e continuamos, cavando mais fundo em busca daquilo que somos, de nossas preferências e limitações, nosso perfil, nossos vulcões, nossas ilhas, nossos mares. [...] É possível encontrar na escrita um sentido para viver.”
(PERISSÉ, 2011, p. 76)
A força do livro está justamente em mostrar que ler, pensar e escrever são práticas inseparáveis. Uma pessoa não escreve bem apenas porque domina regras gramaticais. Escreve melhor quem lê com atenção, pensa com rigor e aprende a dar forma às próprias ideias.
Para estudantes de graduação, candidatos à pós-graduação, professores, pesquisadores e pessoas que desejam melhorar sua escrita acadêmica, o livro funciona como convite e método. Não promete atalhos. Pelo contrário, lembra que formar pensamento próprio exige trabalho intenso.
Grifo do autor
Ler, pensar e escrever é mais do que uma sequência didática. É uma postura diante do mundo.
No campo acadêmico, especialmente para quem deseja produzir TCC, artigo, projeto de pesquisa, dissertação ou tese, esses três verbos precisam caminhar juntos. Ler sem pensar vira acúmulo de informação. Pensar sem escrever pode se perder na abstração. Escrever sem ler e sem pensar tende a produzir texto vazio, repetitivo e sem direção.
Talvez uma das maiores dificuldades da vida acadêmica hoje seja justamente essa: muita gente quer escrever, mas ainda não construiu intimidade com a leitura; muita gente lê, mas não registra; muita gente pensa, mas não transforma o pensamento em texto.
Perissé ajuda a lembrar que escrever não é dom reservado a poucos. É prática, disciplina e formação. E, como toda formação, começa com uma decisão simples e difícil: sentar, ler, pensar e escrever.
Referência
PERISSÉ, Gabriel. Ler, pensar e escrever. 5. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2011.
Para continuar a conversa
Qual desses três verbos tem sido mais difícil para você: ler, pensar ou escrever?
Você tem uma rotina de leitura e escrita ou ainda sente que seus textos nascem apenas quando a urgência aperta?
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