O Capital, de Costa-Gavras: quando o dinheiro deixa de ser instrumento e vira senhor

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O filme O Capital, de Constantin Costa-Gavras, é uma obra incômoda porque não tenta suavizar a lógica do capitalismo financeirizado. Ao contrário, expõe sua face mais fria: o dinheiro convertido em poder, o trabalho tratado como variável descartável e a vida social subordinada aos movimentos abstratos das finanças.

A análise crítica de Giovanni Alves situa o filme no contexto da crise estrutural do capital, especialmente a partir dos anos 1970, quando o neoliberalismo e a financeirização passaram a reorganizar o capitalismo mundial. O que está em jogo não é apenas a ambição individual de Marc Tourneuil, personagem central do filme, mas a forma como o capital financeiro se impõe como racionalidade dominante.

Marc ascende ao comando do banco Phenix em meio a disputas internas, interesses de acionistas, pressões de fundos especulativos e jogos de poder. Sua trajetória mostra como o sujeito burguês contemporâneo não precisa ser apresentado como vilão caricatural. Ele é mais perigoso justamente porque opera com frieza, cálculo, inteligência e aparente normalidade.

Uma das frases centrais do filme sintetiza essa lógica: “O dinheiro é o amo. Quanto melhor o serve, melhor ele te trata.” Aqui, o dinheiro não aparece como simples meio de troca. Ele aparece como capital, como valor que busca se autovalorizar, como força social que organiza relações, decisões, afetos, demissões, governos e destinos coletivos.

Giovanni Alves chama atenção para o caráter metafórico do filme. O banco Phenix, que remete à ave que renasce das cinzas, simboliza a capacidade do capital financeiro de sobreviver às suas próprias crises. Bolhas estouram, empresas quebram, trabalhadores perdem empregos, Estados se endividam, mas o capital financeiro se reorganiza e segue ampliando seu domínio.

Essa é uma das críticas mais fortes da obra. As crises não aparecem como acidentes externos ao sistema. Elas fazem parte da própria dinâmica de acumulação. O capitalismo financeirizado produz instabilidade, destrói vínculos, precariza o trabalho e depois se apresenta como solução para os problemas que ele mesmo aprofundou.

No filme, o trabalho organizado quase não aparece como força de resistência. Sindicatos e governos surgem como coadjuvantes enfraquecidos diante da lógica global das finanças. Essa ausência não é casual. Ela expressa uma conjuntura histórica em que o capital se fortaleceu ao mesmo tempo em que debilitou a capacidade coletiva de enfrentamento dos trabalhadores.

O chamado downsizing, apresentado como ajuste técnico, revela a brutalidade da linguagem empresarial. Demitir trabalhadores passa a ser vendido como estratégia racional, necessária e moderna. O sofrimento social é escondido atrás de termos gerenciais, planilhas e discursos de eficiência.

A cena do almoço em família é uma das mais importantes porque desloca Marc, ainda que por instantes, do universo abstrato das finanças para o mundo concreto das relações humanas. O tio o confronta diretamente, afirmando que o banco sangra as pessoas três vezes: como trabalhadores, como clientes e como cidadãos. É uma síntese dura, mas precisa, da forma como o capital financeiro atravessa a vida cotidiana.

Outro ponto importante da análise de Alves é a esterilidade das relações afetivas no filme. As relações de Marc são marcadas por distanciamento, fetiche e incapacidade de entrega. Sua vida familiar é atravessada pelo tempo capturado pelo dinheiro. O tempo de vida se transforma em tempo do capital.

Nesse sentido, O Capital não é apenas um filme sobre bancos. É um filme sobre a colonização da vida pelo capital financeiro.

A juventude e a velhice também aparecem como problemas para essa racionalidade. Os jovens carregam uma futuridade precarizada, marcada pela instabilidade e pela dificuldade de inserção plena na vida adulta. Os idosos aparecem como custo, peso previdenciário, obstáculo às contas públicas. A vida humana passa a ser avaliada conforme sua funcionalidade econômica.

Essa é uma das marcas mais perversas da sociedade financeirizada: tudo precisa justificar seu valor diante da rentabilidade.

O filme de Costa-Gavras, lido por Giovanni Alves, ajuda a compreender que a financeirização não é apenas um fenômeno econômico. Ela é também forma de sociabilidade. Molda relações, linguagens, afetos, expectativas e formas de poder.

Grifo do autor

O Capital é um filme necessário porque mostra que o capitalismo contemporâneo já não precisa esconder completamente sua violência. Ele a traduz em linguagem técnica.

Demissão vira ajuste. Exploração vira produtividade. Especulação vira inovação financeira. Desigualdade vira efeito colateral. E o sofrimento dos trabalhadores desaparece nas notas de rodapé dos relatórios corporativos.

A crítica de Giovanni Alves é importante porque nos lembra que o capital financeiro não paira acima da sociedade. Ele reorganiza o trabalho, captura o Estado, redefine políticas públicas e transforma a vida humana em variável de mercado.

Assistir a esse filme hoje é perceber que a pergunta continua aberta: quem controla o dinheiro ou quem já foi controlado por ele?

Referências

ALVES, Giovanni. Análise crítica do filme O Capital, 2013.

O CAPITAL. Direção: Constantin Costa-Gavras. França: 2011.

OSMONT, Stéphane. Le Capital. Obra que inspirou o filme.

Para continuar a conversa

O que mais chama atenção nesse filme: a frieza do sistema financeiro, a fragilidade do trabalho ou a forma como o dinheiro reorganiza as relações humanas?

Você indicaria outro filme sobre capitalismo, trabalho, crise ou financeirização?

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