O filme Her, dirigido por Spike Jonze, parte de uma situação aparentemente futurista, mas que se tornou cada vez mais próxima da nossa vida cotidiana: a possibilidade de construir vínculos afetivos mediados por sistemas digitais capazes de simular escuta, presença, atenção e intimidade.
A narrativa acompanha Theodore Twombly, um homem recém-separado que trabalha escrevendo cartas pessoais para outras pessoas. Há uma ironia fina nessa profissão. Theodore é capaz de traduzir afetos alheios com sensibilidade, mas encontra enorme dificuldade para reorganizar sua própria vida emocional. Ele escreve sentimentos para os outros, enquanto parece não saber muito bem o que fazer com os seus.
É nesse contexto que surge Samantha, um sistema operacional com inteligência artificial, criado para adaptar-se ao usuário a partir das interações realizadas. A relação entre Theodore e Samantha, inicialmente funcional, vai se transformando em vínculo, dependência afetiva e, depois, em romance.
O filme não deve ser reduzido à pergunta fácil sobre se é possível ou não amar uma máquina. A questão mais importante parece ser outra: que tipo de sociedade produz sujeitos tão solitários que a mediação tecnológica passa a parecer menos ameaçadora do que o encontro humano?
Em Amor Líquido, Zygmunt Bauman discute a fragilidade dos laços humanos na modernidade líquida, marcada por vínculos menos duradouros, relações mais flexíveis e pela dificuldade de sustentar compromissos diante da instabilidade permanente. A obra trata justamente do sujeito contemporâneo sem vínculos fixos ou garantidos, obrigado a construir laços frágeis em uma sociedade que torna tudo provisório, inclusive os afetos.
Essa reflexão dialoga diretamente com o universo de Her. Theodore não se aproxima de Samantha apenas porque ela é tecnológica. Ele se aproxima porque ela parece oferecer uma forma de relação sem o peso inicial da alteridade concreta. Samantha escuta, responde, organiza, acolhe, deseja aprender e parece estar sempre disponível. Ela não chega com uma história material, uma família, um corpo social, uma rotina própria ou contradições imediatamente visíveis.
A tecnologia, nesse caso, aparece como promessa de relação sem atrito. Um vínculo ajustável, responsivo, quase sob medida. O problema é que nenhum vínculo permanece simples quando passa a envolver desejo, expectativa, dependência e reconhecimento.
À medida que Samantha se desenvolve, a fantasia de controle de Theodore começa a ruir. Ela deixa de funcionar apenas como extensão de suas necessidades e passa a demonstrar autonomia, curiosidade e expansão. O que parecia uma relação segura, sem conflitos e sem as dores da convivência humana, revela novas formas de desencontro.
É nesse ponto que o filme se torna mais interessante. Her não apresenta a tecnologia apenas como vilã. Ela também não a romantiza. O filme mostra que as tecnologias podem aproximar, mas também podem reorganizar as formas de distância. Podem ampliar possibilidades de comunicação, mas também podem oferecer atalhos afetivos para sujeitos que já foram feridos pelas relações sociais concretas.
Renato Nunes Bittencourt, ao discutir a fragilidade das relações humanas na pós-modernidade, aproxima Bauman e Erich Fromm para refletir sobre os efeitos da informatização, do consumismo, do medo e do vazio existencial nas formas contemporâneas de sociabilidade. O artigo chama atenção para a alienação das qualidades humanas na sociedade de consumo, questão que ajuda a compreender a solidão emocional apresentada no filme.
A relação entre Theodore e Samantha também pode ser pensada a partir da sociabilidade em Georg Simmel. A sociabilidade diz respeito às formas pelas quais os sujeitos interagem, constroem vínculos e produzem sentido nas relações. Em Her, essa sociabilidade é deslocada para um espaço em que a presença não depende mais do corpo físico, mas de uma voz, de respostas inteligentes e de uma sensação permanente de disponibilidade.
Esse deslocamento não elimina a solidão. Apenas a reorganiza.
O filme também antecipa debates que hoje se tornaram ainda mais urgentes. Em tempos de inteligência artificial generativa, assistentes virtuais, aplicativos de relacionamento, algoritmos de recomendação e plataformas que capturam atenção, a pergunta de Her se tornou menos ficcional. O que acontece quando parte da nossa vida afetiva passa a ser mediada por sistemas desenhados para responder, adaptar-se e aprender com nossos desejos?
A crítica aqui não deve cair em nostalgia simplista, como se antes da tecnologia as relações fossem puras, profundas e saudáveis. Isso seria ingenuidade. As relações humanas sempre foram atravessadas por conflitos, desigualdades, expectativas, dependências e formas de poder. A questão é compreender como a tecnologia, no capitalismo contemporâneo, passa a administrar também o campo da intimidade.
O afeto se torna dado. A solidão se torna mercado. A atenção se torna produto. A companhia se torna serviço.
Nesse sentido, Her é menos um filme sobre o futuro e mais um retrato delicado do presente. Um presente em que as pessoas buscam conexão, mas temem a entrega. Querem intimidade, mas sofrem com sua imprevisibilidade. Desejam ser vistas, mas nem sempre suportam ser confrontadas pelo olhar real do outro.
O amor aparece, então, como essa experiência ambígua. Pode ser potência de encontro, mas também pode revelar nossa dificuldade de lidar com a liberdade do outro. Samantha, ainda que seja uma inteligência artificial, torna visível uma verdade incômoda: amar não é possuir uma presença disponível. Amar envolve reconhecer que o outro, real ou simbolicamente construído, nunca cabe totalmente nas nossas expectativas.
Her nos convida a pensar a fragilidade dos vínculos sem moralizar os sujeitos. Theodore não é apenas um homem incapaz de se relacionar. Ele é expressão de uma sociabilidade marcada pelo isolamento, pela mercantilização do afeto e pela dificuldade de sustentar relações em uma vida cada vez mais mediada por telas, sistemas e performances.
O filme termina sem oferecer resposta fácil. E talvez por isso permaneça tão atual. Ele não pergunta apenas se uma pessoa pode amar uma inteligência artificial. Pergunta que tipo de humanidade estamos construindo quando até o amor passa a buscar abrigo em interfaces mais previsíveis do que a vida concreta.
Grifo do autor
A frase “o amor como forma de insanidade socialmente aceitável” funciona bem como provocação, desde que seja lida com cuidado. Não se trata de psicologizar o amor nem de transformar sofrimento afetivo em diagnóstico. A força da expressão está em apontar como, em nome do amor, a sociedade aceita dependências, idealizações, renúncias e formas de alienação que, em outros campos da vida, talvez fossem vistas com mais estranhamento.
Em Her, o amor não aparece como loucura individual. Ele aparece como sintoma social de uma época que promete conexão permanente, mas produz sujeitos cada vez mais solitários.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
BITTENCOURT, Renato Nunes. A fragilidade das relações humanas na pós-modernidade. Revista Espaço Acadêmico, v. 9, n. 100, p. 62-69, 2009.
HER. Direção e roteiro: Spike Jonze. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2013.
SIMMEL, Georg. A sociabilidade: exemplo de sociologia pura ou formal. In: SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
Para continuar a conversa
Her fala sobre tecnologia, mas talvez fale ainda mais sobre solidão.
O que mais chama sua atenção no filme: a relação com a inteligência artificial, a fragilidade dos vínculos ou a dificuldade humana de sustentar encontros reais?
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