Dramas psicológicos: quando o cinema nos obriga a olhar para dentro

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Os dramas psicológicos ocupam um lugar especial no cinema porque não tratam apenas de acontecimentos externos. Eles mergulham nas contradições da mente humana, nos traumas, nos silêncios familiares, nas instituições de controle, nos limites entre realidade e delírio, nas formas de sofrimento psíquico e nas tentativas, nem sempre bem-sucedidas, de encontrar algum sentido para a vida.

Mais do que “filmes sobre loucura”, essas obras nos ajudam a pensar como a sociedade lida com aquilo que foge da norma. Muitas vezes, o sofrimento mental aparece associado ao isolamento, à violência institucional, à medicalização, ao abandono, à culpa, à memória, à repressão dos desejos ou às pressões sociais por desempenho.

Algumas obras importantes

Psicose
Psicose, de Alfred Hitchcock, é um clássico para pensar culpa, repressão, identidade e perturbação psíquica. Norman Bates se tornou um dos personagens mais emblemáticos do cinema justamente porque revela a complexidade entre trauma, controle familiar e fragmentação subjetiva.



Laranja Mecânica
Provoca uma discussão incômoda sobre violência, controle social e liberdade. O filme não apenas apresenta Alex como sujeito violento, mas questiona até que ponto uma sociedade pode “corrigir” alguém por meio de técnicas desumanizadoras.



Um Estranho no Ninho
É essencial para refletir sobre instituições psiquiátricas, disciplina, poder e resistência. A figura da enfermeira Ratched simboliza uma forma de controle que se apresenta como cuidado, mas que também pode sufocar a autonomia dos sujeitos.



Ilha do Medo
Trabalha culpa, memória, trauma e negação. É um filme que nos coloca diante da fragilidade da percepção humana e da dificuldade de enfrentar acontecimentos profundamente dolorosos.




Se Enlouquecer Não se Apaixone 
Na trama, Craig, após desavenças sérias na escola, é forçado a passar alguns dias em uma clínica psiquiátrica. Como não há uma ala para adolescentes, Craig, passa a conviver com adultos que possuem diversificados problemas mentais e se apaixona por uma moça um tanto desequilibrada.



Cisne Negro
Mostra como a busca pela perfeição pode se transformar em violência contra si mesma. Nina é consumida pela exigência de desempenho, pela repressão dos desejos e pela pressão estética e profissional.




Tomates Verdes Fritos
Em visita à tia do marido num asilo, Evelyn, uma dona de casa entediada, conhece a nonagenária Ninny. Cativada pelas histórias que Ninny conta sobre uma famosa disputa entre duas mulheres em sua cidade natal, Evelyn acaba se tornando amiga da adorável senhora e isso mudará sua vida. As histórias contadas por Ninny são mostradas num longo flash back, quando conhecemos o cotidiano dos cidadãos em Whistle Stop, onde um restaurante serve os tradicionais tomates verdes fritos.



Gênio Indomável
É uma das obras mais bonitas sobre inteligência, trauma e vínculo terapêutico. Will tem uma capacidade intelectual extraordinária, mas carrega feridas emocionais que só começam a ser enfrentadas quando encontra alguém capaz de escutá-lo sem reduzi-lo ao seu talento.




Rain Man 
Após a morte do pai, jovem recebe duas notícias: não vai levar nenhuma parte da herança e ainda tem um irmão autista que ele não sabia da existência.




Garota, Interrompida

Apresenta a experiência de internação psiquiátrica a partir de jovens mulheres marcadas por sofrimento, conflitos de identidade, impulsividade e busca de pertencimento.



Uma Mente Brilhante
Aborda a trajetória de John Nash e sua convivência com a esquizofrenia, mostrando os impactos do adoecimento psíquico na vida pessoal, acadêmica e familiar.




A Teoria de Tudo
Baseado na biografia de Stephen Hawking, o filme mostra como o jovem astrofísico fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide e a descoberta de uma doença motora degenerativa, quando ele tinha apenas 21 anos.



O Silêncio dos Inocentes
Qual a melhor forma de compreender os passos de um serial killer, senão consultando outro serial killer? Essa é a missão de Clarice, uma agente do FBI que negocia com o prisioneiro Hannibal Lecter para que ele a ajude a prender outro assassino, que ainda está à solta. Lecter é um vilão culto e sofisticado que usa a psicologia para manipular os agentes ao seu redor, inclusive Clarice, e conseguir sua liberdade.




Poesia
Uma idosa, que cuida sozinha do neto e vem enfrentando os primeiros sintomas de Alzheimer, decide fazer um curso de poesia. Enquanto procura inspiração para seu primeiro poema, ela descobre que o garoto cometeu um crime e provocou o suicídio de uma colega. Tentando se manter forte e tomar as decisões certas, ela analisa as pessoas e o mundo ao seu redor, até finalmente encontrar sua resposta e seu poema.





O Enigma de Kaspar Hauserma
Um jovem que vive acorrentado em um porão e nunca teve nenhum contato com a sociedade, ele é solto na cidade e com o tempo começa a mostrar certa inteligência, sendo a noção de civilização, religião e ciência as únicas coisas que ele não compreende. O filme tem mistério e um toque psicológico a partir do momento que um jovem criado em cativeiro passa a tentar entender a vida na civilização e vira atração na cidade.





Don Juan DeMarco
Um homem que usa uma máscara preta afirma ser o sedutor Don Juan. Após tentar se jogar de uma ponte em Nova York, o personagem interpretado por Johnny Depp é levado até uma clínica psiquiátrica e tratado por um médico prestes a se aposentar (Marlon Brando). O filme introduz o personagem fictício Don Juan, a provável loucura de um homem que acredita ser ele e o renascer da chama do casamento de um médico, tornando o longa um romance muito bem feito e interessante.




Seven: sete crimes capitais
O suspense policial estrelado por Brad Pitt e Morgan Freeman traz um enredo bem denso: dois policiais, um prestes a se aposentar (Freeman) e um jovem (Pitt) que pretende começar uma família ao lado de sua esposa (Gwyneth Paltrow), tem que resolver o caso de um serial killer que mata as pessoas com base nos sete pecados capitais: gula, avareza, luxuria, ira, inveja, preguiça e vaidade. A investigação acaba mexendo com o psicológico dos dois policiais e intriga o público na espera do próximo crime a ser cometido através do pecado.




A Origem
Cobb que entra nos sonhos dos outros para roubar segredos valiosos do inconsciente durante o estado de sono. Ele é um fugitivo e não pode entrar nos EUA, mas desesperado para rever seus filhos, Cobb aceita a proposta de Saito, um empresário japonês, de entrar na mente de Richard, herdeiro de um império econômico, para plantar a ideia de desmembrá-lo. Para realizar tal tarefa ele conta com a ajuda de Arthur, da arquiteta de sonhos Ariadne e Eames, que consegue se disfarçar de forma precisa no mundo dos sonhos. O tom psicológico encontrado no filme é a abordagem do inconsciente que o torna a cada minuto mais interessante.




Precisamos falar sobre Kevin
É um drama psicológico narrado de forma não linear a partir das memórias de Eva, a mãe de Kevin. Kevin não mantém uma relação sadia com nenhum dos membros da família, e aos poucos tem traços de psicopatia introduzidos a sua personalidade, porém, por mais que os problemas de Kevin fossem perceptíveis, ninguém fala sobre isso, o que agrava seu quadro. Kevin ataca a escola e a família, o que faz com que ele seja preso e as memórias de Eva sobre seu filho, desde a gravidez, são apresentadas. Parece obvio que Kevin precisa de cuidados e que seu quadro podia ter sido revertido caso tivesse atenção, mas ninguém fala sobre ele, e isso causa tragédias irreparáveis.




O Solista
Baseado na história real de Nathaniel Anthony Ayers, um rapaz com extremas habilidades musicais, principalmente no violino e violoncelo, chegando a estudar na famosa escola de artes Juillard School – mas acabou a largando em dois anos, quando começou a apresentar comportamentos psicóticos como alucinações auditivas. Acabou se tornando uma em situação de rua em Los Angeles e Steve Lopez, um colunista do joranl LA Times o conheceu e escreveu um livro sobre sua vida, que acabou virando este filme.




O Psicólogo - O doutor está fora
O psicólogo das estrelas de Hollywood. Famoso, ele é o autor de alguns best-sellers, incluindo um livro sobre a felicidade. Mas a vida dele está longe de seguir sua receita de felicidade. Após a morte de sua esposa, Henry se auto-medica, bebe e usa maconha de forma descontrolada. Desiludido, sua esperança de salvação talvez seja o seu primeiro caso fora de Hollywood, Jemma, uma garota problemática que não aceita a morte da mãe. Além disso, há um mergulho nas rotinas e neuroses de diversos clientes de Henry, como Kate Amberson, uma famosa atriz que enfrenta a crise dos 30 anos; Jeremy, um jovem escritor inseguro; e um agente obsessivo-compulsivo.




Amnésia
Um ladrão ataca Leonard e sua esposa e acaba matando a mulher e deixando o homem à beira da morte, porém, ele sobrevive, mas acaba vivendo com uma doença que o impede de gravar na memória fatos que aconteceram recentemente. Mesmo com este problema, Leonard parte em uma jornada em busca de vingança tentando descobrir quem é o assassino de sua esposa vivendo a mercê de anotações e tatuagens que faz em seu corpo para que se lembre de tudo. O filme deixa o telespectador no escuro por certos momentos até chegar a seu final complexo.




Para sempre Alice
Uma professora de linguística com 50 anos que aos poucos vai esquecendo palavras e é diagnosticada com Alzheimer. A doença precoce e sem cura necessita de cuidados e afeta a fragilidade de sua família, seu casamento e seus filhos, que mesmo sem a abandonar nunca, sentem que ela nunca mais voltará a ser a mesma.




Nise - O Coração da Loucura
Ao voltar a trabalhar em um hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro, após sair da prisão, a doutora Nise da Silveira propõe uma nova forma de tratamento aos pacientes que sofrem da esquizofrenia, eliminando o eletrochoque e lobotomia. Seus colegas de trabalho discordam do seu meio de tratamento e a isolam, restando a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início a uma nova forma de lidar com os pacientes, através do amor e da arte.




Esses filmes não devem ser vistos apenas como entretenimento. Eles podem ser usados como disparadores de debate em Serviço Social, Psicologia, Educação, Saúde Mental, Direitos Humanos e formação crítica.

Pela perspectiva do Serviço Social crítico, é importante evitar leituras moralistas ou simplificadoras sobre sofrimento psíquico. A pergunta não deve ser apenas “qual é o diagnóstico?”, mas também: quais relações sociais, familiares, institucionais e históricas atravessam esse sofrimento? Que formas de cuidado existem? Que violências foram naturalizadas? Que sujeitos foram silenciados?

O cinema, nesse sentido, pode ajudar a ampliar nossa sensibilidade para aquilo que muitas vezes a vida cotidiana tenta esconder.

Para continuar a conversa

Qual desses filmes mais marcou você?

Você acredita que o cinema ajuda a compreender melhor o sofrimento psíquico ou, às vezes, também reforça estigmas?

Deixe seu comentário, sua experiência ou indique algum filme, livro, série, música ou documentário que ajude a ampliar esse debate sobre saúde mental, subjetividade e cuidado.

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