Há uma história, repetida muitas vezes, de que Van Gogh teria comido tinta amarela acreditando que, de alguma forma, aquilo colocaria felicidade dentro dele. Não sei se a história é completamente verdadeira, mas talvez sua força esteja menos no fato em si e mais na imagem que ela produz.
A tinta era tóxica. Comer tinta não traria felicidade. Do ponto de vista racional, não fazia sentido algum.
Mas a dor nem sempre opera pela razão.
Quando alguém está profundamente infeliz, até as ideias mais absurdas podem parecer uma tentativa de alívio. Se, por algum instante, a pessoa acredita que pintar por dentro aquilo que está escuro pode diminuir a angústia, talvez ela tente. Não por loucura simples, não por estupidez, mas por desespero.
E aqui mora uma reflexão incômoda: todos nós, em algum momento, buscamos alguma forma de “tinta amarela”.
Pode ser um amor em que insistimos mesmo sabendo do risco. Pode ser uma fuga, um vício, uma promessa, uma crença, uma rotina, uma pessoa, um projeto ou qualquer coisa que nos faça acreditar que a dor pode ficar um pouco menor.
Há riscos. Há quedas. Há excessos. Mas também há uma tentativa humana de continuar.
Talvez a questão não seja rir da tinta amarela de alguém. Talvez seja perguntar que dor tornou aquela tinta necessária.
Van Gogh transformou sofrimento em cor, solidão em traço, angústia em obra. E talvez por isso sua história continue nos atravessando: porque, de algum modo, todos conhecemos a vontade de encontrar luz onde parece não haver mais nenhuma.
Todos temos a nossa tinta amarela.
Para continuar a conversa
Qual é a sua “tinta amarela”?
Aquilo que, mesmo parecendo estranho para os outros, já lhe ajudou a atravessar um período difícil?
Deixe seu comentário, sua experiência ou indique algum filme, música, livro ou obra de arte que ajude a pensar sobre dor, criação e sobrevivência.


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