Este fichamento nasce de uma oficina sobre drogadição realizada em alusão ao Setembro Amarelo, em 2016, com relatos de adolescentes acompanhados em medida socioeducativa. O tema exige cuidado, porque não se trata apenas de falar sobre drogas, mas sobre sujeitos, vínculos, sofrimento, escolhas, responsabilidades, contextos familiares, sociais e institucionais.
O uso de substâncias não pode ser reduzido a “falta de caráter” ou “fraqueza individual”. Essa leitura moralista pouco ajuda. Pelo contrário, afasta, estigmatiza e dificulta o acesso ao cuidado. Pela perspectiva crítica, é necessário compreender a drogadição como fenômeno complexo, atravessado por dimensões biológicas, psicológicas, sociais, culturais, familiares, econômicas e territoriais.
O primeiro ponto discutido na oficina foi a diferença entre uso, abuso e dependência. O uso pode ocorrer por curiosidade, acesso, influência do grupo, contexto familiar, busca de pertencimento ou tentativa de aliviar algum sofrimento. Em muitos casos, especialmente entre adolescentes, o grupo exerce forte pressão simbólica. Usar pode aparecer como forma de aceitação, afirmação ou medo de exclusão.
O abuso surge quando o consumo começa a produzir prejuízos concretos na vida do sujeito: conflitos familiares, perdas escolares, rompimento de vínculos, exposição a riscos, alterações no comportamento, problemas de saúde e dificuldades de responsabilização diante das próprias escolhas.
A dependência, por sua vez, precisa ser compreendida como uma condição complexa, marcada pela continuidade do uso mesmo diante de prejuízos significativos. Ela envolve tolerância, abstinência, compulsão, sofrimento psíquico e mudanças na forma como a pessoa se relaciona consigo mesma, com os outros e com o mundo.
Um dos elementos discutidos foi a tolerância, isto é, a relação entre quantidade consumida, frequência de uso e os efeitos produzidos no organismo. Com o avanço da dependência, aquilo que antes gerava prazer ou alívio pode deixar de produzir o mesmo efeito, levando o sujeito a aumentar ou modificar o padrão de consumo. Em fases mais graves, o uso pode deixar de buscar prazer e passar a funcionar apenas como tentativa de evitar sofrimento, abstinência ou desorganização emocional.
A oficina também abordou a síndrome de abstinência, entendida como o conjunto de sinais e sintomas que podem surgir quando há interrupção, redução ou ausência da substância. Esses sinais podem envolver ansiedade, irritabilidade, alteração de humor, insônia, confusão mental, tremores, sudorese, dores, náuseas, alteração da pressão arterial, taquicardia e outros sintomas. Cada substância, cada organismo e cada contexto produzem respostas diferentes, por isso o acompanhamento profissional é indispensável.
Um ponto importante é que a dependência não deve ser pensada apenas em sua dimensão física. Há também a dimensão psicológica, marcada pela obsessão, pela busca do alívio imediato, pela dificuldade de lidar com frustrações, perdas, conflitos e dores emocionais.
A frase discutida na oficina sintetiza bem esse processo:
Dor ou problema + droga = alívio imediato + dor futura.
Essa formulação ajuda a compreender que, muitas vezes, a substância aparece como tentativa de fuga. O sujeito não usa apenas “porque quer”, em sentido simplista. Usa porque, em algum momento, aprendeu que a substância produz alívio rápido diante de uma dor que parecia insuportável. O problema é que esse alívio imediato costuma produzir consequências futuras ainda mais difíceis.
Nesse processo, surgem perdas materiais, morais, legais, afetivas e físicas. Também aparecem rupturas familiares, isolamento, promessas não cumpridas, comportamentos de defesa, vergonha, culpa e sofrimento.
Mas aqui é preciso fazer uma distinção fundamental: culpa não é o mesmo que responsabilidade.
A culpa paralisa, humilha e aprisiona. A responsabilidade, por outro lado, pode abrir caminho para o cuidado, o tratamento, a reconstrução de vínculos e a reorganização da vida. No campo das políticas públicas e do cuidado, não se trata de procurar culpados, mas de construir condições para que o sujeito reconheça sua situação, aceite ajuda qualificada e possa reconstruir caminhos possíveis.
A família também sofre nesse processo. Muitas vezes carrega culpa, vergonha, medo, raiva e sensação de impotência. Por isso, o cuidado não deve se restringir apenas ao usuário. É necessário envolver família, rede de apoio, escola, serviços de saúde, assistência social, sistema socioeducativo e demais políticas públicas.
No caso dos adolescentes em medida socioeducativa, esse debate se torna ainda mais delicado. É preciso evitar leituras que reduzam o adolescente ao ato infracional ou ao uso de substâncias. Estamos falando de sujeitos em desenvolvimento, muitas vezes atravessados por trajetórias de pobreza, violações de direitos, rupturas familiares, evasão escolar, violência territorial e ausência de oportunidades concretas.
A responsabilização deve existir, mas precisa estar articulada à garantia de direitos, proteção social, cuidado em saúde mental, acesso à educação, cultura, esporte, trabalho protegido e reconstrução de projetos de vida.
A oficina também apontou a importância de reconhecer os chamados facilitadores do uso: ambientes, vínculos, situações e contextos que favorecem a continuidade do consumo. Do mesmo modo, destacou a necessidade de apoio qualificado, aceitação da mudança, construção de novos hábitos e fortalecimento de valores como responsabilidade, diálogo, respeito, solidariedade, disciplina, sinceridade e cuidado consigo.
Em alusão ao Setembro Amarelo, essa discussão ganha ainda mais força. O uso abusivo de substâncias pode estar relacionado a sofrimento psíquico intenso, ideação suicida, sensação de vazio, desamparo e perda de sentido. Por isso, falar de drogadição também é falar de escuta, prevenção, acolhimento e cuidado.
Não há solução simples para um fenômeno tão complexo. Mas há caminhos possíveis quando substituímos julgamento por escuta, punição isolada por cuidado, estigma por responsabilização com direitos e silêncio por diálogo.
Para continuar a conversa
Como você percebe o debate sobre drogadição hoje: ainda muito marcado pelo julgamento moral ou já mais próximo de uma perspectiva de cuidado?
Você acredita que adolescentes e jovens em sofrimento encontram espaços reais de escuta nas famílias, escolas e instituições?
Deixe seu comentário, sua experiência ou indique algum livro, filme, música, artigo ou documentário que ajude a pensar drogadição, saúde mental, juventude e reconstrução de trajetórias.
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