O filme “Boa Sorte”, baseado no conto “Frontal com Fanta”, de Jorge Furtado, apresenta uma narrativa sensível e intensa sobre invisibilidade, sofrimento psíquico, juventude, amor e finitude. A história acompanha João, um adolescente marcado por conflitos familiares, solidão e dificuldades emocionais, que acaba sendo internado em uma clínica psiquiátrica.
A ideia de “ficar invisível” aparece como uma metáfora poderosa. João não está literalmente invisível, mas se sente assim diante das pessoas ao seu redor. Em vários momentos, sua família decide sobre sua vida como se ele não estivesse presente, como se suas dores, desejos e angústias não tivessem importância. Essa invisibilidade revela uma forma profunda de abandono afetivo.
Na clínica, João conhece Judite, uma jovem vivendo com HIV/Aids. A relação entre os dois nasce em meio à dor, mas também abre espaço para descobertas importantes: o primeiro amor, a primeira experiência afetiva intensa, o primeiro contato real com a morte e a possibilidade de enxergar a vida de outra maneira.
Uma das cenas mais marcantes ocorre quando Judite pergunta a João quantas pessoas ele já viu morrer. Ao ouvir que nenhuma, ela responde que será a primeira. Em seguida, diz apenas: “boa sorte”. Essa fala carrega uma mistura de afeto, despedida, ironia e coragem diante da finitude.
O filme mostra que, mesmo em contextos de sofrimento, ainda pode existir encontro, cuidado e transformação. João passa a dar um novo sentido à própria vida, ao mesmo tempo em que também oferece a Judite uma experiência de afeto e presença em seus últimos momentos.
A cena final é especialmente tocante. A música “O Vampiro”, de Caetano Veloso, que João ensina Judite a tocar durante o filme, permanece como uma lembrança simbólica da relação entre os dois. É uma daquelas cenas que nos deixam em silêncio, olhando para a tela, tentando compreender o que foi sentido.
Assim, “Boa Sorte” fala sobre primeiras vezes: o primeiro amor, a primeira transa, a primeira perda, o primeiro encontro verdadeiro com a morte. Mas também fala sobre segundas chances. Mostra que, mesmo quando a vida parece quebrada, ainda pode haver espaço para afeto, escuta e reconstrução.
Fonte:
Filme “Boa Sorte”, dirigido por Carolina Jabor, baseado no conto “Frontal com Fanta”, de Jorge Furtado, publicado em Tarja Preta, Editora Perspectiva, 2005.



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