Carta a uma recém-formada que pensou em desistir do Serviço Social

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Cara e nobre,

Quando você disse que pensou em desistir do Serviço Social por falta de oportunidades e valorização, a primeira coisa que precisa ser dita é sua angústia é legítima.

Não há romantização possível diante de um mercado de trabalho cada vez mais duro, competitivo e precarizado. O recém-formado entra em uma espécie de ringue desigual, disputando poucas vagas com profissionais que já possuem anos de experiência, especializações, redes de contato e maior domínio institucional.

Mas é importante compreender uma coisa: esse problema não é exclusivo do Serviço Social.



Profissões historicamente mais elitizadas ou socialmente valorizadas, como Medicina, Direito e Engenharias, também enfrentam disputas, barreiras e concentração de oportunidades. A diferença é que muitas dessas áreas contam com maior prestígio social, redes familiares, heranças profissionais, consultórios, escritórios, indicações e capital econômico acumulado. Ou seja, nem sempre se trata apenas de mérito. Muitas vezes, trata-se de ponto de partida.

No Serviço Social, a situação se agrava porque nossa profissão depende fortemente das políticas públicas, dos concursos, das instituições socioassistenciais, da saúde, da educação, da previdência, do sistema de justiça e das organizações que atuam nas expressões da questão social. Quando o Estado reduz investimentos, terceiriza serviços, precariza vínculos e substitui equipes estáveis por contratos frágeis, o impacto recai diretamente sobre a categoria.

Os concursos públicos estão mais escassos. As seleções temporárias se multiplicam. A terceirização avança. A lógica do “faça tudo com pouco” tenta transformar trabalho qualificado em serviço avulso, fragmentado e desespecializado.

Por isso, não coloque sobre si a culpa por uma estrutura que é muito maior do que a sua trajetória individual.

Mas também não pare.

O mercado é difícil, sim. Só que o caminho não pode ser a desistência automática. O caminho precisa ser estratégia.

Alguns passos podem ajudar nesse início de trajetória:

  1. Fortaleça sua base teórica e técnica.
    Não abandone os fundamentos do Serviço Social. Leia Iamamoto, Netto, Guerra, Yazbek, Mota, Boschetti, Behring. Quem entende a realidade com profundidade escreve melhor, argumenta melhor e se posiciona melhor.
  2. Aprenda a transformar conhecimento em produto profissional.
    Saiba elaborar relatórios, pareceres, projetos sociais, diagnósticos, planos de intervenção, estudos socioeconômicos e registros técnicos qualificados.
  3. Escolha uma área de aprofundamento.
    Assistência Social, saúde, educação, sociojurídico, meio ambiente, habitação, direitos humanos, infância e juventude, população idosa, pessoas com deficiência. Quem tenta abraçar tudo pode acabar não sendo lembrado por nada.
  4. Invista em pós-graduação com critério.
    Não faça especialização apenas para acumular certificado. Escolha formações que dialoguem com seu projeto profissional e aumentem sua capacidade real de intervenção.
  5. Construa presença profissional.
    Atualize currículo, LinkedIn, Lattes, portfólio, produza textos, participe de eventos, publique reflexões, apresente trabalhos. Ser vista também faz parte da disputa profissional.
  6. Não dependa apenas de concurso.
    Concursos são importantes, mas não podem ser a única estratégia. Projetos, consultorias, assessorias, organizações sociais, docência, produção técnica e formação continuada também podem abrir caminhos.
  7. Construa rede, mas sem bajulação.
    Rede profissional não é oportunismo. É circulação ética, participação, diálogo, parceria e presença nos espaços certos.
  8. Entenda que experiência também se constrói.
    Projetos voluntários sérios, participação em pesquisa, extensão, eventos, escrita técnica e atuação em coletivos podem fortalecer sua trajetória quando ainda falta experiência formal.

O Serviço Social não é uma profissão menor. Menor é a forma como a sociedade capitalista tenta tratar tudo que não gera lucro imediato.

Nossa profissão atua onde a desigualdade aparece sem maquiagem: na fome, no desemprego, na violência, na moradia precária, na violação de direitos, no adoecimento, na infância desprotegida, na velhice abandonada, na juventude criminalizada, nas mulheres violentadas, nas famílias que o Estado só lembra quando a tragédia já aconteceu.

Por isso, valorizar o Serviço Social também é valorizar as políticas públicas, as condições de trabalho, a formação crítica e a organização coletiva da categoria.

Você não precisa carregar o mundo nas costas. Mas precisa compreender o mundo para não ser esmagada por ele.

Siga. Estude. Escreva. Participe. Escolha uma direção. Construa repertório. Não aceite a precarização como destino, mas também não permita que ela roube sua consciência, sua esperança e sua capacidade de disputar espaços.

A história não terminou.

E o Serviço Social continua sendo necessário justamente porque a realidade continua profundamente desigual.

Com respeito e esperança.

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