O tema não surgiu apenas como objeto acadêmico. Ele atravessou uma experiência profissional e territorial. No período dos primeiros protestos contra o aterro, o autor atuava como servidor no município de Marituba e acompanhou de perto as reclamações da população sobre alterações na qualidade da água, do ar, nas condições de saúde, nas atividades econômicas e na dinâmica social das comunidades próximas ao empreendimento.
A pesquisa teve como foco os bairros Santa Lúcia, Santa Clara e Guará-Suco, com aplicação de questionários a 40 moradores e observação roteirizada nos meses de novembro e dezembro de 2018. A análise dos impactos foi realizada por meio de uma matriz adaptada a partir de Lollo e Rohm (2006), tendo como referência elementos dos Estudos de Impacto de Vizinhança.
O estudo demonstrou que os impactos sociais não podem ser tratados como efeitos secundários ou periféricos do licenciamento ambiental. Pelo contrário, eles fazem parte da realidade concreta dos moradores que convivem diariamente com os efeitos de empreendimentos dessa natureza.
Entre os principais impactos identificados estiveram problemas relacionados à saúde, especialmente doenças respiratórias e de pele, alterações na qualidade da água e do ar, reflexos nas atividades econômicas, desvalorização imobiliária e mudanças no uso dos rios como fonte de alimentação, lazer e sociabilidade.
A dissertação também evidenciou lacunas importantes no processo de implantação e operação do aterro. Entre elas, destacam-se a insuficiência de participação efetiva da população, a escolha de uma área ambientalmente sensível, a proximidade com comunidades em processo de adensamento populacional e a fragilidade das respostas do poder público e da empresa responsável pela gestão do empreendimento.
O caso de Marituba revela um problema recorrente nos grandes e médios empreendimentos urbanos e ambientais: os impactos são distribuídos de forma desigual. A população do entorno, geralmente marcada por menor poder político e econômico, passa a arcar com os efeitos negativos de decisões tomadas sem participação social suficiente.
Nesse sentido, a pesquisa dialoga diretamente com o debate sobre justiça socioambiental, pois mostra que a degradação ambiental tem endereço, classe social e território. Não se trata apenas de resíduos sólidos. Trata-se de saúde, moradia, trabalho, renda, mobilidade, lazer, pertencimento e direito à cidade.
Referência
VASCONCELOS JUNIOR, Moisés Rita. Estudo sobre a implantação do aterro sanitário no município de Marituba-PA e os efeitos sobre as comunidades do entorno. 2019. 148 f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente Urbano) – Universidade da Amazônia, Belém, 2019.
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