A obra O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional, de Marilda Villela Iamamoto, é leitura fundamental para compreender os desafios da profissão diante das transformações do capitalismo, do mundo do trabalho, do Estado e das políticas sociais.
Logo na introdução, a autora nos coloca diante de uma exigência incontornável: pensar o Serviço Social hoje requer olhos abertos para o mundo contemporâneo. Não se trata de olhar apenas para dentro da profissão, como se ela pudesse ser explicada por si mesma. O Serviço Social é parte da sociedade, nasce das contradições da vida social e se movimenta no interior das relações entre Estado, classes sociais, políticas públicas e população usuária.
Uma das passagens mais importantes da obra afirma que:
“O atual quadro sócio-histórico não se reduz a um pano de fundo para que se possa, depois, discutir o trabalho profissional. Ele atravessa e conforma o cotidiano do exercício profissional do assistente social.”
Esse trecho é central porque rompe com uma leitura superficial da prática profissional. A realidade social não é cenário. Ela condiciona o trabalho, as demandas, os limites institucionais, as condições de vida dos usuários e as possibilidades de intervenção.
Iamamoto chama atenção para a necessidade de superar uma visão endógena do Serviço Social. Ou seja, é preciso sair de uma leitura fechada da profissão e compreendê-la no movimento da sociedade. Esse deslocamento é decisivo para evitar práticas repetitivas, burocráticas ou ilusórias.
O assistente social é desafiado a ser mais do que executor de tarefas. A autora defende a necessidade de um profissional propositivo, capaz de decifrar a realidade, construir respostas criativas e formular estratégias de intervenção a partir das demandas concretas que emergem no cotidiano.
O Serviço Social, nessa perspectiva, é compreendido como uma especialização do trabalho coletivo. O assistente social vende sua força de trabalho especializada, em troca de salário, e atua em processos institucionais que não controla plenamente. Por isso, sua autonomia é sempre relativa. A instituição empregadora organiza parte das condições, dos meios e dos limites do trabalho profissional.
Esse ponto é essencial. A prática profissional não acontece no vazio. Ela se realiza em instituições públicas, privadas, filantrópicas, empresariais e sociais, atravessadas por interesses distintos. O profissional possui direção ética e competência técnica, mas atua em condições historicamente determinadas.
A base de fundação da profissão, segundo Iamamoto, está na questão social, entendida como conjunto das expressões das desigualdades produzidas pela sociedade capitalista. Essa desigualdade nasce de uma contradição fundamental: a produção da riqueza é coletiva, mas sua apropriação permanece privada.
A questão social, porém, não é apenas desigualdade. É também resistência. Ela envolve sujeitos que sofrem, lutam, resistem, se organizam e disputam formas de vida. É nessa tensão entre produção da desigualdade e produção da resistência que o Serviço Social atua.
A autora também analisa os efeitos do neoliberalismo sobre as políticas sociais. A retração do Estado, a redução dos investimentos públicos, a focalização, a privatização e a transferência de responsabilidades para a sociedade civil impactam diretamente o exercício profissional. Nesse cenário, o trabalho do assistente social se realiza sob pressões cada vez maiores, com demandas ampliadas e condições institucionais muitas vezes precarizadas.
Outro ponto forte da obra está na crítica aos impasses profissionais. Iamamoto identifica três armadilhas importantes: o teoricismo, o politicismo e o tecnicismo.
O teoricismo acredita que apenas a apropriação teórica resolveria os dilemas da prática. O politicismo supõe que o engajamento político, por si só, garantiria uma intervenção profissional qualificada. O tecnicismo aposta que o domínio de técnicas basta para uma atuação competente.
A autora mostra que esses três elementos, isolados, são insuficientes. O exercício profissional exige articulação entre dimensão teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa. Uma sem a outra produz distorções.
Esse debate é extremamente atual. Ainda hoje, parte da formação e da prática profissional oscila entre discursos muito abstratos, militância sem mediação profissional ou respostas meramente técnicas e burocráticas. Iamamoto nos lembra que o desafio está justamente na mediação entre teoria e realidade, entre princípios éticos e cotidiano institucional, entre crítica social e intervenção concreta.
A obra também destaca a importância da pesquisa como dimensão constitutiva do exercício profissional. Pesquisar não é atividade separada da intervenção. É condição para formular respostas qualificadas, compreender as particularidades da questão social e dar materialidade aos princípios do projeto ético-político.
Na discussão sobre formação profissional, Iamamoto recupera a importância das Diretrizes Curriculares e dos três núcleos fundamentais: os fundamentos teórico-metodológicos da vida social, os fundamentos da formação sócio-histórica brasileira e os fundamentos do trabalho profissional. Esses núcleos não são etapas isoladas. Eles compõem uma unidade necessária para formar profissionais capazes de compreender a sociedade burguesa, a particularidade brasileira e o Serviço Social como trabalho especializado.
Outro elemento importante da obra é a análise da aproximação do Serviço Social com o marxismo. A autora reconhece os avanços dessa aproximação, mas também aponta seus equívocos históricos, como o contato com um “marxismo sem Marx”, mediado por leituras simplificadas, partidárias ou positivistas. Daí surgem riscos ainda presentes, como o fatalismo e o messianismo.
O fatalismo naturaliza a realidade e vê a profissão como completamente aprisionada ao poder institucional. O messianismo aposta na vontade individual do profissional como se ela pudesse, sozinha, transformar a realidade. Em ambos os casos, perde-se a mediação histórica.
O caminho indicado por Iamamoto é mais exigente: compreender a profissão na realidade, não acima dela nem fora dela. O Serviço Social não atua apenas sobre a realidade. Atua na realidade.
Grifo do autor
A grande contribuição de Iamamoto está em recolocar o Serviço Social no chão da história.
A profissão não pode ser pensada como prática neutra, nem como pura técnica, nem como militância sem mediação profissional. Também não pode ser reduzida ao cotidiano institucional, como se preencher formulários, encaminhar demandas e produzir relatórios encerrasse o sentido do trabalho profissional.
O desafio está em decifrar a realidade concreta, compreender as expressões da questão social, reconhecer as condições institucionais do trabalho e construir respostas profissionais coerentes com o projeto ético-político.
Iamamoto não oferece receita pronta. E esse talvez seja o ponto mais importante. A formação em Serviço Social não é manual de procedimentos. É construção permanente de capacidade crítica, competência técnica, direção ética e leitura histórica.
Referência
IAMAMOTO, Marilda Villela. O Serviço Social na Contemporaneidade: Trabalho e Formação Profissional MarildaVillela Iamamoto. - 3. ed. - São Paulo, Cortez, 2000. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez.
Para continuar a conversa
O Serviço Social, hoje, tem conseguido formar profissionais propositivos ou ainda está preso à rotina burocrática das instituições?
Como articular teoria crítica, ética profissional e intervenção concreta sem cair no teoricismo, no politicismo ou no tecnicismo?
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